O fim da era Panini: por que a Fifa decidiu mudar o álbum da Copa
- 8 de mai.
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Depois de seis décadas, a Fifa encerra sua parceria com a Panini e entrega os colecionáveis da Copa a um gigante americano. A decisão mexe com memória afetiva, mercado global e o futuro da experiência do torcedor.

Existe um ritual que atravessa gerações no futebol. Ele não acontece dentro do estádio nem depende de uma bola rolando. Acontece na mesa da escola, na banca de jornal, no chão da sala e nas tardes gastas repetindo a mesma pergunta: “tem figurinha pra trocar?”. Durante mais de 60 anos, esse ritual teve um sobrenome. Panini.
A decisão da Fifa de encerrar sua histórica parceria com a empresa italiana e transferir os direitos dos álbuns e colecionáveis da Copa do Mundo para a Fanatics, dona da Topps, parece apenas um movimento comercial. Mas ela diz muito sobre como o futebol moderno passou a tratar emoção, memória e consumo como partes do mesmo negócio.
A mudança começa efetivamente em 2031 e fará da Copa de 2034, na Arábia Saudita, o primeiro Mundial sem Panini desde 1970. Para muita gente, isso soa quase como imaginar a Copa sem narração de rádio ou sem álbum na mesa da cozinha.
Muito além das figurinhas
A Panini não vendia apenas cromos. Ela ajudou a construir a linguagem sentimental das Copas.
Cada álbum funcionava como cápsula de tempo. As figurinhas marcavam eras, cortes de cabelo, patrocinadores, escudos e promessas que nunca viraram craques. Muita gente lembra da própria infância através de um álbum incompleto guardado numa gaveta.
Por isso a ruptura tem impacto emocional raro no futebol. O torcedor pode até consumir jogos por streaming, acompanhar estatísticas em tempo real e viver o esporte em telas cada vez menores, mas o álbum seguia oferecendo uma experiência física, tátil e coletiva. Era um dos últimos pedaços analógicos da Copa do Mundo.
O futebol mudou, e o mercado mudou junto
A decisão da Fifa também revela algo maior: o futebol entrou de vez na lógica das plataformas globais de entretenimento.
A Fanatics não atua apenas como fabricante de colecionáveis. A empresa americana construiu um ecossistema integrado de produtos licenciados, comércio digital, experiências premium e engajamento contínuo de fãs. A lógica é transformar o torcedor em consumidor recorrente durante o ano inteiro, não apenas durante o torneio.
Gianni Infantino justificou a troca falando em inovação e novas formas de conexão com os fãs. O discurso aponta para uma mudança clara de direção: a Fifa quer menos nostalgia e mais monetização permanente.
O álbum da Copa virou ativo estratégico
Durante décadas, o álbum foi tratado como um produto afetivo altamente lucrativo. Agora ele passa a ser encarado como plataforma global de receita.
A Fanatics trabalha com modelos muito mais agressivos de colecionismo, incluindo cards raros, edições limitadas, integração digital e itens voltados para especulação de mercado. Nos Estados Unidos, esse sistema movimenta cifras milionárias entre colecionadores e investidores.
O receio de parte dos torcedores é que a experiência tradicional seja substituída por uma lógica próxima da cultura hype. Menos troca na praça, mais escassez artificial. Menos coleção popular, mais produto premium. A reação nas redes sociais já mostra esse desconforto.
“A Fifa não trocou apenas uma fornecedora. Trocou a forma de enxergar o torcedor.”
A memória afetiva perdeu espaço para o negócio global
A Panini sobrevivia porque entendia algo que o futebol sempre soube fazer bem: transformar repetição em tradição.
O problema é que o futebol contemporâneo passou a operar em outra velocidade. Clubes viraram marcas globais, jogadores se tornaram propriedades digitais e o torcedor passou a ser medido por métricas de engajamento. Nesse ambiente, tradição vale enquanto gera expansão comercial.
A Fanatics oferece exatamente isso. A empresa domina mercados digitais, trabalha com integração entre físico e virtual e dialoga diretamente com uma geração acostumada a colecionar itens dentro de aplicativos, jogos e plataformas online.
Entenda o que muda agora
Panini segue até 2030
As próximas Copas ainda terão álbum da empresa italiana.
Fanatics assume em 2031
A Copa de 2034 será a primeira sem Panini em mais de seis décadas.
Mais integração digital
A nova parceria promete cards especiais, itens híbridos e experiências digitais.
Mudança de perfil
O colecionismo tende a ficar mais premium, raro e orientado ao mercado global.
Existe também uma disputa cultural
O álbum da Copa sempre foi especialmente forte em países como Brasil, Argentina, Itália e México porque ali o futebol ainda funciona como memória coletiva.
Nos Estados Unidos, o mercado de cards esportivos opera de outra maneira. O foco costuma estar em raridade, valorização financeira e exclusividade. A entrada definitiva da Fanatics pode representar uma americanização do colecionismo ligado ao futebol mundial.
Isso ajuda a explicar por que a notícia provocou reação emocional tão forte. Não se trata apenas de trocar fabricante. Para muitos torcedores, parece que a Copa está abandonando um pedaço da sua identidade popular.
O que fica para o torcedor
Ainda haverá álbum. Ainda haverá figurinha rara. Ainda existirão crianças abrindo pacotes antes da aula e adultos gastando mais do que deveriam tentando completar páginas.
Mas alguma coisa muda quando uma tradição de seis décadas termina. O futebol costuma sobreviver às próprias mudanças porque sabe transformar ruptura em espetáculo. A questão é entender quanto dessa transformação ainda preserva o espírito original do jogo.
Talvez a Panini nunca tenha sido apenas uma empresa de figurinhas. Talvez ela fosse uma das poucas instituições capazes de transformar Copa do Mundo em lembrança física.
E isso não se substitui tão facilmente.
Del Gol
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